Abordagem do Tema e sua Inserção na Linha Temática
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Buscando relacionar as principais formas de propriedade e experiência que concebemos em nossas relações cotidianas e pessoais no mundo, as novas políticas de emancipação misturam saberes sócio-técnicos distribuídos a partir do uso das novas mídias, como celulares e computadores conectados, à produção de subjetividades mediada cada vez mais pelo uso intenso de tecnologia digital. Para tratar da crise de soberania conceitual sobre a constituição do modelo de autoria voltado para o talento inato, de gênio, apresentaremos a atual situação da circulação de bens culturais não rivais, como é o caso dos arquivos de computador, onde a relação humano-técnica impulsiona uma alteração de foco de um sistema de produção baseado em escassez de mercadorias para um largo consumo de gratuidades oferecidas com os bens não rivais. Assim pretendemos comparar o trabalho de uploaders, pessoas que voluntariamente disponibilizam, em ambiente virtual, conteúdos livres de propriedade intelectual, aos doadores de sêmen e óvulo que, no Brasil e em vários outros países, permitem a geração de filhos da mulher independentemente de parceiro, chamando a atenção para a experiência do feminino para teorizar sobre o valor da informação, digital e genética, na produção de crenças e desejos das pessoas no começo do século XXI.
Os movimentos sociais, por sua vez, encontram hoje nas tecnologias de informação e comunicação digital novas formas de mobilização e produção de suas identidades, onde o trabalho das redes de solidariedade locais se nutre e fortalece com apoiadores e exposição virtuais. A partir da experiência de cada coletivo, intenta-se promover um debate sobre os problemas e potencialidades do uso de tecnologia digital na luta social cotidiana aliada a um pensamento descentrado, pequeno, comprometido com uma construção coletiva de vocação universalista, comum.
Considerando as formas de propriedade que emanam de uma noção de indivíduo, composto da separação entre corpo e alma, geralmente oposto à sociedade, interessamo-nos por debater a constituição dessa pessoa a partir das velhas e novas tecnologias, buscando relacionar um pretenso mundo de interioridade em conflito com as extensões sócio-técnicas que vêm reconfigurando as identidades em rede.
Assim, diante de uma crescente crítica à propriedade, inserida nos sistemas de acelerada circulação de bens intangíveis, entre redes distribuídas e organizadas, que enfrentam em seu cotidiano uma cultura que apreende a forma das coisas imaginando que elas existem em si mesmas, queremos problematizar o pressuposto relativo à propriedade cuja premissa é a identificação unitária entre as pessoas (como sujeitos) e os produtos de sua atividade.
Buscamos refletir assim a cultura técnica proposta na filosofia de Gilbert Simondon (1958), onde a pessoa que se forja neste começo de século aponta para uma outra relação humano-técnica, apresentando fundamentos para superação do que se entendia mesmo da natureza do humano, onde passamos de uma relação de busca de dignidade do objeto técnico para a defesa da dignidade do assim chamado pós-humano.
Compromissados com o trabalho colaborativo organizado a partir da experiência da tecnicidade, de uma tecno-estética e tecnomagia que potencializam uma sensibilidade pós-midiática, como operam as conexões disparadas por mentes coletivas, redes generalizadas hoje em dia? O que é e o que implica esse descentramento da noção de pessoa para as estratégias de resistência e emancipação humanas? Há novos padrões de resistência face às novas formas de dominação?
Essas e outras perguntas compõem o escopo de interesse do debate, e convidam à reflexão e práticas ainda insipientes neste começo de século XXI.
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